quasefala [blog]

Modo de escrita/memória/arquivo

[em construção-organização por tempo indeterminado]

FLN-POA, 2007-2014

2014 04 08

espirro

voa. passa rápido. intenso. incontrolável. inconformável. inconsolável. espirro já nasce fora. já morre. se não vem não vai. espirro abisma mirando a luz. do fim. do começo do espirro. independente de mim. indecente. inconveniente. espirro chia. agrava o agudo da alma. apazigua a tensão da gagueira. acoberta a vista vazia. preenche um espaço ou todos. pois já morre. assim que nasce. e se repete. prolifera outrem. abalo sísmico. grito cósmico. ritmo cínico. vive para si. por si. em si. prazeroso destroço do corpo. grande espirro. silenciou tudo. como a morte. como a vida. um pio. apenas.

2014 01 31

00 é na nuca que meus silêncios ventam
01 olhando de revesgueio é como caçam os poetas
02 rabixos do passado me enxaquecam
03 se comecei a desabafar é pq dobrei a língua em dó maior
04 tenho um monstro rosa que me sorri em clima de girassol
05 se dependesse de mim pupilas palpitariam
06 quando uma calma floresce duas vão ao cinema
07 qualquer coisa que beire a boca salta num looping duvidoso
08 odeio vírgulas de nariz empinado
09 fico desmedida antes de tombar meu sono
10 me desculpem os afetos e os rarefeitos
11 as vezes eu vomito pelas pálpebras
12 tenho dó de quem grita palavrões
13 e amor por quem esquece situações verde limão
14 meu estômago é um velho sábio chinês
15 minha cabeça é mais ranzinza que meus joelhos juntos
16 desatei a formar janeiro com o apaixonante azedo da rúcula
17 pontos finais saem pra balada em dias úteis

2014 01 09

por um triz-te
um feliz-te

2013 09 16

com quantos bocejos se faz um sono?
com quantos sonos se faz um sonho?
com quantos sonhos não se faz mais nada?

2013 08 12

– alô, quem fala?
– quasefalha
– alô, quem falha?
– quasefala

2013 04 24

visto agora minha camisa-de-fraqueza, meu olhar fracassado, minha espada partida ao meio, minha boca-aberta, minhas pernas bambas e sigo. não importa se sou poeta ou o diabo. ou se o diabo é poeta. ou se a pedra. ou se a queda deserta. infarta. capeta. fica esperta. neném tem cara de esfinge. ou de planeta. não importa. quantos pontos de luz te seguem por trás das orelhas? raposas. alertas. caretas mestras. te enganas. e segues. te enganas e te ganhas em sucessivas respostas. gritarias. risadas. solidões tão sós que nem o sol. tanto mendigo a espreita te esperando passar. te curvas. te cai nas mãos uma escuridão. uma montanha. passos soltos e quase mortos. são as vidas que te seguem. já mortas. pedintes. te derrubam e não te levantas. nunca mais ou nunca menos. não importa. prisioneira de ti ou do mendigo ou do diabo ou do poeta. alguém se importa. a esfinge. só a esfinge te completa. mentira. conferes. por favor. eu me curvo cada dia mais pra enxergar o que há de mais alto. o que há de menor na ponta do último ar. sob a primeira cova depois do nascimento da esfinge. céus. terras. submundos. sobre-mundos. só as caretas desmazeladas. amarradas com barbante do mais barato. bem apertadas. até tirarem o suco do teu sufoco. pois conseguiram. te digo ainda. que eles são tu.

2013 04 10

Amassar palavra pra fazer pão de texto.

Gosto mesmo é de começar texto do zero-a-zero. Pois que aflição que me dá ter que ficar remendando frase, sacrificando palavra pra fazer nascer outra no lugar, quando sou obrigada a escrever texto do zero-a-um, do um-a-um, do zero-a-dois ou qualquer coisa que venha a empacar o pensamento. Tirou do zero-a-zero, pois pode empalhar, vai ficar pros seres cibernéticos-magnéticos-proféticos o resto. Não, mas não assumo mesmo esse risco de ficar amassando página e página como se fosse massa de pão. Aperta, contrai e cadê que chega a hora de ir pro forno? Massa de texto é assim, quando chega o momento de assar, ele passa tão, mas tão rápido, que nem raio de trovão, que a gente nem sente, só arrepio. Quando vê tá lá, amassando mais um zero-a-um, zero-a-dois ou dois-a-dois. Quando vê tá lá, fazendo as palavras praticarem yoga, alongando e distribuindo o texto de tudo que é jeito. Quando vê tá lá o sol, as pessoas, os cachorros, os livros e tudo o mais, passando o tempo no parque, ouvindo uma música alto-astral e pensando em fazer pão quando chegar em casa. Não é assim? Bom mesmo é pão sem remendo, pão que é feito de várias ideias e posto no forno até ficar pronto. Pois se abre o forno, já sabe né. Temos pão batumado. Denso, tão denso que fica difícil de ler, decifrar de onde vieram os pensamentos, de tão consistentes. Mas, sabe, uma massa aerada, uns momentos de respiro, pensamento leve, sem esgotamento, que abre espaço pra mais texto, pra mais trigo, pra mais. É difícil dizer, mas prefiro escrever aquilo que não como.

2013 03 21

sair da linha. cair no plano.

não ser convicto. nem coerente. discordar do próprio pensamento. desconfiar de si mesmo. intuir ser outro. noutro. com outro. e aí que está a segurança de viver errado. na insegurança que é cambalear. cair e não levantar. ser feliz no chão. com o chão. para o chão. na dúvida que está em cada decisão. na incisão de cada dúvida. na sinceridade dos vultos que vivem por dentro do corpo. nos órgãos afagados por almas terceiras. nas lamúrias amigas e nas petúnias dissimuladas. pois o mundo é são demais. o mundo é pronto demais pra viver. tira o chão. e aí? como cambalear sem chão? não poder cair é o cúmulo do céu sem chão. não poder voar é o túmulo de quem se acomoda nas nuvens.

2013 03 14

quando quem quer que esteja lá, quando de fato está. dentro da tua cabeça. quando tua cabeça ‘tá mais pra lá do que pra cá. quando não sabes o que se faz aqui. quando mesmo, ainda que não, ainda que quase nada aconteça fora da cabeça. porque dentro da cabeça é o fora do mundo. e por dentro ninguém repara. só apara. apara. apara. para. compara fora e dentro. porque cabeça de ninguém ‘tá pra negócio.

2013 03 11

(a vida é só uma parte da dúvida)

2012 12 12

achei que ia morrer, então acordei. morri pro sonho.

2012 09 11

as palavras me palavram

Tem vezes que eu queria chegar aqui e escrever um texto bonito, que dissesse as coisas de um jeito minucioso, longínquo, sereno. Outras vezes lembro que no mínimo uma farpa deve conter nesse texto pra ele não tender à náusea. Eis que me deparo com as palavras que formariam essa maciez e essa rigidez, por vezes se alternando, outras vezes se completando. Aí as palavras me conquistam e eu esqueço o tal assunto bonito-ríspido que eu queria desenrolar nas linhas. Penso na primeira palavra e já vem de súbito a segunda e a terceira. Como se a maciez que eu quisesse colocar no texto estivesse na palavra “maçã” e a rispidez na palavra “criar”. E uma loucura na palavra “explica” ou “ceroula”. E raiva na palavra “rápido” ou “ventilador”. Algo como: “Cria nessa maçã que te explico rápido como vestir uma ceroula na frente do ventilador.” Aqui esse texto é completo, compreende?

Quatro quasefalas foram publicadas na revista Nanu! 11, em 2010 (p. 20, 63, 66 e 116).